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Alucinação
Senti que sufocava. Não sei exatamente como começou. Consegui, a muito custo, vislumbrar um homem bem moreno, jovem, forte. Músculos bem marcados por exercício físico diário saltavam junto a meu rosto. Esforço? Não, nenhum esforço para me estrangular. O rosto em esgar incontrolado me assustava. Os músculos, não: gosto de homens musculosos.
Por certo, fazia parte de uma família. Talvez a minha própria, não sei. Vários vultos apreciavam a cena, sem se mexer. Nem gritar eu podia. Nem valia a pena: ninguém me socorreria.
Foi logo depois do ataque histérico da mulher de branco. De camisolão grosseiro daqueles que se usava nos asilos estudados por Foucault. Solto do corpo como o dos fantasmas. Não era fantasma. Disso, tenho certeza. Era minha parenta, de algum modo. Fazia tamanho estardalhaço que a veste subia e eu conseguia ver suas pernas muito brancas e finas. Os cabelos ralos desgrenhados em desespero. Com sua própria vida?
Por mais que tente, não consigo adivinhar por que razão ambos, homem e mulher, haviam se tornado loucos completos. Alguns psiquiatras e psicanalistas descobririam na família a gênesis de toda a loucura. Mas, como, se eu saí normal? E meus irmãos?
Lembro-me bem da cena: a mulher corria para baixo e para cima da sala não muito grande. Os demais caminhos eram penosos demais para seus pés pequenos. Os gritos, ou mesmo, as lamúrias percorriam o espaço até o local predileto de minha reflexão: a mesinha do computador.
Certamente a mulher me era familiar, pois tentei socorrê-la. Primeiro, com carinhos de mãos que a não alcançavam; depois, com palavras apaziguadoras, de efeito nulo. Desespero não se acalma com palavras - lição que aprendi para qualquer outra ocasião, quem sabe? Estado de exaltação pode melhorar com silêncio respeitoso ou com tranqüilizantes, no caso da boca que berra permanecer aberta e dar uma chance da gente se aproximar.
Havia duas outras mulheres. Sabiam que o melhor era deixar a cena rolar - filme de horror que pode acabar bem inesperadamente. Eu, não. Queria sair do estarrecimento diante do destino trágico da mulher.
O homem apareceu depois. Com fúria ainda maior, não gritou, não disse nada: avançou até a mesinha, direto para meu pescoço de ave prestes a cair morta. Vestia-se de preto, agora tenho certeza. Em roupa de judô. Vi o quimono de tecido grosso, com faixa e tudo. Quem sabe não havia chegado de uma competição? Não conseguindo sucesso, nem esperou crítica: fez o gesto tresloucado, por pura raiva.
Ainda engasgada, percebi as mãos afrouxarem-se, sem aviso. Não movi um músculo se quer. Não corri, não me afastei. Esperei o grandalhão se ir babando, suando...
Muito mais tarde, liguei os personagens aos pesadelos comuns a minhas muitas noites de insônia.
O episódio pode parecer absurdo: dois doentes mentais numa mesma família. Me disseram que há casos de três ou quatro alucinados num mesmo lar. Se a doença é genética, não há como escapar: um dia, ela aparece. Se é maldição do destino, pode cair num primo, num tio, num cunhado, mas cai. Se é defeito de criação familiar, aí, sim, é outra história: pode ir em cima dos filhos todos.
Então, devia ser isso: culpa dos pais, deformados pela realidade social adversa.
Mas meu flagelo não parou aí. Depois do episódio do quase estrangulamento, dos parentes doentes mentais, quatro assaltantes, bem nas redondezas de minha casa. Haviam me avisado e nem liguei: fui para a rua. Tinha que arejar um pouco. Resultado: assalto à mão armada na minha casa. Na porta da rua, dei sorte: fiquei apenas sem cordão de ouro, sem carteira, sem documentos... No pescoço, além das marcas das mãos tresloucadas, um filete de sangue, por conta do fino cordão, tirado às pressas.
Estancou logo, logo. Dei graças a Deus, enquanto os bandidos entravam. Não fiz nem menção de voltar. Antes assalto do que loucura familiar: perde-se os bens, e daí? Mais bens se adquirem, e pronto. Cabeça sadia, essa, sim, não se substitui com facilidade. Dá um trabalhão para todos: família e doutores, não é mesmo?
- É, minha filha. Fique quieta: a injeção não dói nada.
Maria Lindgren voltar | ver comentários (1) | envie para um amigo
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Comentários recentes
Solidão cósmica*
Cara poeta Regina
Realmente, nada mudou por aqui.
Em sua carta desabafando a saudade do amigo Renato Russo,e de como "as coisas continuam coisando por aqui", é triste e ao mesmo tempo hilário, o Brasil decadente em que vivemos.
Pão e circo, mas o que seria de nós sem o poeta?
Rub Weiss em 05/09/2010
Aquele olhar
Olhares impossíveis. Uma despedida querendo ficar. Lindo, como tudo o que o autor escreve. Amei!
Kelly Santoro em 04/09/2010
De Profundis
De profundis é o que você , nobre poeta escreve.
Você fala de alma para alma. E a canção é simplesmente um deleite para os ouvidos e suas palavras para o coração.
Num site tão maravilhoso, uma única crítica:
conheço sua obra tão intensa e promissora.
E encontro poucas poesias suas.
benjamin bonhoeffer em 04/09/2010
HÜZÜN (Melancolia)
Minha poetiza preferida
Regina e as palavras...
Meu universo se encanta com a poesia em relevo,
explícita nos versos que escreve, delineiam, sublimam o pensar e resgatam nossos sentidos, e quando digo nossos, estou falando de nós,
pobres mortais diante da poesia.
Quão pálida e desvalida seria nossa vida se não houvesse o poeta, se não houvesse você!
Regina, o mundo ainda é melhor porque você não é virtual, você escreve e existe.
benjamin bonhoeffer em 04/09/2010
Aquele olhar
Mais uma vez releio Alberto Cohen. Mais uma vez me enterneço com sua forma de escrever e palavras dentro de um texto que não é uma simples crônica. Seria diminuí-la, intitulando-a simplesmente assim. É uma poesia pura, doída e maravilhosa, que fotografa um último instante entre dois seres que se amavam e, neste relato, nos fala, por meio de um olhar, algo que nos intriga, mas que é lindo e ficará para sempre na mente do apaixonado.
Parabéns.
Anizia da Graça em 03/09/2010
Aquele olhar
Uma das mais belas crônicas, que nos toca profundamente a sensibilidade, retratando a despedida entre dois amantes, magoados, dizendo coisas caladas por tanto tempo por meio de olhares e gestos contrastantes. O que, realmente, queria dizer aquele olhar? A dúvida ficou, tanto para o amante, quanto para seus leitores, encantados com o que leram.
tania melo em 03/09/2010
Aquele olhar
É o tipo de texto em que a gente desenha os personagens na mente, com roupas, cor de cabelos, olhos e todos os detalhes. Gostoso de ser ler, como o começo de um interessante livro romântico. Muito bom!
Cláudia L. Moraes - ASES - Associação de Escritores de Bragança Paulista - SP.
Cláudia L. Moraes em 03/09/2010
Aquele olhar
Imperdivel este texto do poeta.
Prosa poetica, a narrar o encontro que nunca foi.
Ha na vida de cada um de nos o encontro que nunca se deu, o olhar que nunca entendemos, a esfinge de um trocar de sorrisos, o enigma que nunca foi decifrado.
Dos textos de Alberto Cohen, este e um dos que mais me diz.
Maria Armanda Ferreira - Londres em 03/09/2010
HÜZÜN (Melancolia)
Sua alma fala para minha alma e tambem para todo meu povo.
Essa melancolia tão bem descrita, pode ser entendida pelos dois mil anos de dispersão do solo dos meus antepassados.
O povo das lendarias terras de Ofir tem a melancolia, a alegria e a tenacidade na vida.
Pois do levante ao poente, embora dancemos Hava Naguila, a melancolia é tão densa que se torna palpável. Obrigada poeta por tamanha sensibilidade, que me trouxe uma doce e nostalgica
hüzün.
Isaac Goldstein em 02/09/2010
De Profundis
Shalom Regina
Essa poesia é tão bela, que minha amiga copiou e mandou para mim.
Nem preciso dizer-lhe que a pedi em casamento, rs
Ambos, eu e ela, não sabemos escrever poesia, mas sabemos interpretar e sentir o quanto o belo toca a alma e o coração.
E voce, coincidentemente é nossa poeta predileta.
Mazal tov
Isaac Goldstein em 02/09/2010
Pétalas
lindo noto 100000 dez bilhao eu so uma crianca de dez anos eu achei esse poena interesante e a musica e muito cobinando parabens.
MARIA ELIENE em 25/08/2010
Casas velhas
A NOSSA CASA VELHA, NOSSA MATERNIDADE E A VELHA SAPUTILHEIRA MORREU COMO QUE DEBRUÇADA AO CHÃO CHORANDO DE SAUDADES DA GENTE, MAIS OLHA JÁ! DIRIAMOS NAQUELES TEMPOS.
EDIR CARVALHO BEZERRA em 20/08/2010
Pétalas
Tenho me perguntado onde andam os versos no meio de tão conturbada modernidade. A resposta eu encontro nos teus poemas, amado amigo. Belíssimas pétalas, belíssimos versos.
Rita Venâncio em 19/08/2010
Soneto dos tempos modernos
Maravilhoso... e em pensar que encontrei este site desapercebidamente. Raramente é possível ler algo deste nível, estou deslumbrada com seu poema. Parabéns!
Samantha de Sousa em 09/08/2010
Teatro da vida
Minha querida Efigênia simpre, quando eu conseguir algo de seu que eu li e dejascon boas recordações.
Da Argentina um beijo gramnde
Hector R Pomodoro
Hector Reinaldo Pomodoro em 05/08/2010
MEU TEMPO MENINO
Edmir, o ver-o-poema é cada vez mais um olho esperto e preciso na descobertas de palavras e imagens carregados de sentido e poesia.
este video, tao bem filmado, tao bem contado, tao atento a detalhes sensiveis e vivos, em especial, deu vontade de comentar. parabéns a você, ao Emanoel Loureiro e à equipe do filme.
Regina
Reginha M. A. Machado em 04/08/2010
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