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De que me valeira saber dançar? De que me valeria saber dançar?
Eu também não sei dançar Manuel Bandeira E já bebi tanta tristeza que viciei nela Mais meu heterônimo é alegre E dança, e baila e rodopia na minha imaginação E se embriaga de risos e bebe tanta alegria E logo em seguida desaparece Deixando-me com toda a ressaca da vida E eu amanheço meio Macunaíma, meio vilão E descubro-me ardendo em febre Num mocambo assolado pela fome de palavras Que nem Mario de Andrade me sacia E corro no descampado da minha alma Beirando o abismo do silêncio Onde enterrou-se em mim toda a poesia Quando vi Drummond sentado num banco No meio do caminho Fingindo que não me ouvia. Por isso lhe pergunto De que me valeria saber dançar ? Se a lira dos meus vinte anos Já não tem nenhuma harmonia E se tenho apenas as lembranças de morrer As mesmas que Álvares de Azevedo tinha Este, foi poeta, sonhou e amou na vida. Eu fui poeta dos pesadelos, dos desamores E o tempo deixou em mim só despedida Por isso é que a solidão faz do meu coração guarida. E quando meu heterônimo retorna E me transformo em poeta outra vez Ai então o mundo faz sentido Porque eu me embriago de ilusão
“Bebendo a morte”
Ele tinha ombros largos Andar pesado, faces rachadas Mãos trêmulas e pernas inchadas Conduzia um cajado velho, sujo Pesado e tosco Perambulava pelas ruas nuas de sol E repletas de lua Nas sarjetas das manhãs sujas, fedidas e frias Ele despertava para se embriagar de desilusão Nos copos que a esmola lhe pagava E era assim sua rotina Até que um dia Um automóvel guiado em desespero Por um fulano Colega de vicio seu Bebeu-lhe a vida Fugiu sem pagar a conta E nos jornais do dia seguinte Uma foto em preto e branco Mostrava um ser caído na sarjeta Que bebeu a morte em tragos diários
Há uma áfrica em mim
Há um Saara em mim Ele vive e se manifesta Na festa dos ventos que me levam Nos meus pensamentos Sou a fartura do pó que voa no vento E engole as gotas no chão Beduíno das cáfilas rondando a imensidão
Há tantas savanas em mim Guardando o selvagem que sou O mesmo que me devora a carne nua No império dos sentidos Onde impera a mãe natureza Sobre a destreza Dos ávidos e vorazes instintos
Há tanta fome em mim Nas sombras que perambulam Mastigando migalhas Que estalam nos dentes rarefeitos E são devoradas pela fome animal Deixando silhuetas de olhos arregalados Estendidos no chão Vestes de osso e pele abandonados
Mais, há tanta vida em mim Apesar do choro das minhas mães E dos vírus que andam imunes Desafiando-me com a cumplicidade do mundo Que parece temer ser contaminado Ao me estender a mão.
Não, não temas mundo Meu sorriso é fecundo E um dia, ainda vamos bailar Sob os sons dos tambores da África
Um dia, a cor escura da minha mão Poderá a te ser estendida Quem sabe, para evitar que se afogues No oceano da indiferença E assim possamos juntos ter sobrevida
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Varley Farias Rodrigues Nasceu em Crateús, interior do Ceará, mudou-se para Fortaleza muito novo com os pais, trabalha a vinte e oito anos com programação de computadores. A relação com a literatura é muito antiga, pois desde muito jovem é viciado em livros e em escrever. Tem poesias publicadas nos volumes 28, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 37 da Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, no livro Poemas Dispersos (Coleção Literarura Clandestina), e no livro Panorama Literário Brasileiro 2007/2008 (este será lançado em breve), todos da Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Em breve estará publicando um livro de contos.
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Comentários recentes
POEMA PARA AS PERNAS
Ah, Lílian Maial, poetisa e mulher, médica e mestre! Por que não tuas pernas, se marcam passo, caminham, correm e, não raro, voam! Diz bem quando se sente nas alturas das letras a mirar as pernas nas ruas, na vida rotina de sempre ontens, sempre amanhãs...
Preserva as pernas, Mulher de Poesia! Este planalto central brasileiro anseia por elas e reza-lhe versos de andarilhar também, como quem não tem rumo (mas sabe de cor o caminho das estrelas).
Luiz de Aquino em 07/02/2010
POEMA PARA AS PERNAS
Hahaha, eu já comentei esse texto no Recanto das Letras, então aqui só vou resumir. O texto é genial, e uma ótima pérola para este site, que já contava com umuitas belezas.
Daniel C. Rodrigues em 07/02/2010
POEMA PARA AS PERNAS
é preciso saborea-lo mais de uma vez, gostei da imagens, dos enjambements, gostei menos da pontuaçao que me escraviza na leitura de um poema que se quer livre, e que por tanto poderia ter as vezes, em alguns versos outra disposiçao dos mesmos. Estou pensado em analisa-lo junto na minhas alunas de master aqui na Freança. pour quoi pa? E ate muda-lo de lingua no meu seminario trilingue. parabens Lilian . Sua leitora Roselis
Sera que voce podia envioa-me este OD em anexo ao meu mail para facilitar ? Agradeço de antemao
rOSELIS BATISTAR em 07/02/2010
POEMA PARA AS PERNAS
Ler os poemas da Lílian é, sempre, mergulhar num exercício de beleza pensamentos, rimas e versos. Parabenizo o site Ver o Poema pela publicação do POEMA PARA AS PERNAS, ao tempo em que agradeço a oportunidade da sua leitura.
Lêda Yara em 07/02/2010
POEMA PARA AS PERNAS
Poema de pernas para o ar que pára o movimento para curtirmos o momento da leitura. Muito bom.
Fraterno abraço.
Fabio Daflon
Fabio Daflon em 07/02/2010
POEMA PARA AS PERNAS
Dra Lilian Maial , grande escritora , sensível poeta!
Parabéns pela lucidez inspirada nesses versos brancos e purificados pela sua lavra inconfundível !
Abraços fraternos
Vera Mussi
vERA em 07/02/2010
Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso
Lindoooo! O cordelista só deveria ter cuidado, pois caiu na mesma situação do nosso inteligentíssimo poeta Caetano Veloso. Não esqueça, querido amigo, de que Caetano foi, é, e sempre será um dos maiores poetas do mundo. Tem um pasado de luta contra todos os preconceitos. A reprovação é válida, a ofensa não.
Ubirajara Sá em 30/01/2010
Depois das queimas
Este poema me fez um bem danado. Sim. O amor - planta em solo frágil - rebrotando sempre, como a vida da vegetação, mesmo depois das queimadas.
Amália em 30/01/2010
Lamento junto a Deus pelo Haiti
Saudações! Realmente, esta dor não se explica, até mesmo porque não sabemos o dia de nossa morte, apenas temos que estar preparados. É difícil de entender alguns caminhos de Deus, aqueles que estão vivos vão ter que entender de alguma forma esses caminhos, eu não sei como isso vai acontecer, uma das explicações estão no texto acima.
Marcelo Torcato em 28/01/2010
Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso
É lamentável a inocência e o entusiamo do Cidadão Antonio Barreto.
Copnhece da História do Mundo, do Brasil... Se faz História com o tempo. e o próprio Tempo há de mostrar que a visão sobre esse (des)governo do então Presidente/Ditador Lula da Silva vai entrar para uma Página Negra da nossa história brasileira.
Errar é humano! Permanecer no erro é burrice!!!
Maria em 28/01/2010
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