Martim ficou desesperado. Ficou órfão e desatrelado, de repente. Um certo remelexo na família se fez, apelou aos dois filhos já moços, já nos seus caminhos. Maria, nada. Serena, decidida.
Passada uma semana, Maria voltou. Martim precipitou-se, em risos até, ele que era homem de cara amarrada. Maria chegou,deu uma olhada em torno, viu aquela desordem toda, o ateliê uma zona, os trapos sujos de tinta atirados para todos os lados,tirou o chapéu e as luvas, colocou-as em cima da mesa, sentou no mesmo banquinho da despedida.
E explicou seus termos: dali por diante continuaria a trabalhar na casa como secretária do marido, encarregando-se de providenciar a limpeza do ateliê, gerenciar a venda dos quadros. Teria um salário fixo, comissões sobre os ganhos, horas certas – das 9 da manhã às 5 da tarde, com duas horas para almoço.
Certo?
Martim riu, meio divertido. Um riso meio torto, que parou a meio quando viu que ela falava sério. Maria pontuou bem as coisas – pegar ou largar, o respeito às condições devia ser absoluto. Ela seria uma empregada da casa (da firma), paga, com obrigações bem definidas e regalias trabalhistas.
Certo, concordou Martim,engolindo em seco.
E as coisas foram se desenrolando por ali, às nove horas em ponto Maria chegava, abria a porta, ia dependurar o casaco e a bolsa, vestia um guarda-pó, ia arrumando o ateliê, Martim chegava, ela o cumprimentava polidamente, prestava contas, conversava sobre exposições e datas, limpava os pincéis, os trapos sujos,saía para o almoço, voltava. Às cinco horas em ponto tirava o guarda-pó, vestia o casaco, as luvas, pegava a bolsa, se despedia.
É claro que Martim, ao vê-la distante, reservada, misteriosa, tentou o que todo patrão tenta com a secretária – pelo menos teve a intenção de tentar. Afinal, Maria era ainda uma mulher bonita, esguia, elegante. E inteligente, ele não podia negar. Ela voltaria a ser sua, teria de. (O pior é que havia nele, por trás das maquinações da sedução, um sentimento – ela era, sim, a mulher amada, a que nenhuma outra jamais, etc.)
Não. Se enveredarmos por ai, contando as coisas como os demais sempre contaram, quebrando pelas juntas a história e transformando-a em mero clichê, anedota, essa história que dizem verdadeira – estaremos cometendo uma injustiça. Para com os personagens. Para com a própria narrativa, desperdiçada em vulgaridade.
Como saber realmente o que se passava, em Martim, em Maria – como interagiam as duas personalidades, os dois temperamentos,como se combinaram eles em mil recombinações de uma só têmpera, não só naqueles dias posteriores à separação, mas a vida toda, suas conversas em todos os momentos de convivência naqueles vinte e cinco anos anteriores, no picado dos dias das horas, no ateliê, na cama, na praia...enfim – para o quê se encaminhavam, de quê fugiam, sua grandeza, suas mesquinharias...como saber? (nós, que nem ao menos somos deuses).
Só podemos vê-los, a eles dois, Martim, Maria, como duas esferas de força que um dia se encontraram, se superpuseram, reunindo sua potencialidade – a dele, se desenvolvendo depois, a partir da imobilidade dela? (não dizem que “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”?) Mas então, um dia, a força retraída, a Maria, avança para o proscênio, desliga-se da outra força e...
Para Martim, pela primeira vez, houve um questionamento – então ela, não estava feliz? Ela que permanecera todo aquele tempo ali, à sua disposição, ao seu serviço, sim, essa a verdade, ao seu serviço, ela, a sua amada, a sua modelo – não pintara um famoso retrato, dela? De repente – havia uma estranha ao seu lado, uma mulher fria, distante, uma funcionária metódica, uma peça autônoma de engrenagem ?
Martim deu de seguir Maria. Espioná-la. Ir até o seu edifício, rebaixar-se a ponto de indagar coisas do porteiro, do garagista. Saía à noite, percorria os bares da orla do mar, vigiava a saída dos teatros, os restaurantes. Esperava que outros lhe contassem com quem fora vista, o que fazia, com quem estava. Não conseguia descobrir nada.
Como todo homem, e pior ainda, sendo seu dom a expressão plástica, Martim não era dotado de fácil verbalização. Mas durante aquele tempo todo, de desconforto com Maria – meses se passaram, dizem -, foi brotando aos poucos lá dentro dele informe botão, meio que a medo: um desejo de falar, parecia; uma necessidade de desmanchar aquele nó que se formara entre eles (os homens sabem, bem que sabem, que esperamos deles a palavra –o desmanche daquele caroço ruim que eles carregam na garganta, do cancro fechado da “não-entrega”).
Quando a fala chegou, foi numa quarta-feira de inverno, toda cinza, com mar de ressaca ao fundo. Martim esperou por Maria, antecipou-se a ela abrindo a porta do ateliê, foi o primeiro a dizer bom-dia. Maria parou na soleira, como convidada indecisa. Dizem que Martim até arriscou um comentário sobre o tempo – sem graça que só ele mesmo, pensou Maria, que não pôde evitar um sorriso a meio. Talvez estivesse lembrando daquele palhaço que até era engraçado, do baile do Odeon.
A conversa não foi além daquilo, naquele dia de ressaca. Mas parece que frutificou – coloriu-se? Sim, deve ter ido por ali afora, ganhando força e sobretudo cores, aos poucos. Afinal, Martim era um colorista de mão cheia. Mas quando um dia Martim quis estender a conversa para fora do ateliê e das horas regulamentares, Maria voltou a se fechar, desculpou-se como faria com um patrão importuno, catou luvas chapéu e bolsa, saiu rápida. Faltou dois dias ao trabalho. Martim enregelou, colado às suas telas, esperando um telefonema. Que não veio. No terceiro dia, lá estava ela às nove horas, pontual, fria, mecânica.
Não, nem tão mecânica – pensou Martim, que em um dado momento, semanas depois, conseguiu virar-se a tempo de colher na ex-esposa um olhar feminino, intenso, antigo. Um olhar insaciado. Foi a vez dele fingir não ter percebido. Enfim – ficaram neste jogo um pouco mais de tempo, bola vem bola vai.
Até a coisa ganhar uma súbita e incontrolável aceleração quando um dia Martim não se agüentou mais, se arrebentou pela fala – ele, o difícil de verbalização, o homem do pincel, o encruado, falou: coisas assim, que Maria era seu amor, que eles podiam retomar uma vida, que reconhecia seu erro, pedia perdão até, e que tal se fizessem uma viagem à Europa juntos, uma viagem como ela sonhava – ele sabia- não daquelas coisas apressadas e cheias de negócios de quadros e galerias, mas deles, só deles, com tempo e vagar e....
Maria olhou bem para ele, fundo – e sorriu. Não posso exagerar, dizer que aquele foi seu primeiro, seu único sorriso pleno em meses (o outro, o de linhas acima, se estão lembrados, fora “um meio sorriso”), ou em quanto tempo, mas me disseram que sim, que foi. O certo, o que todos viram e confirmaram, foi a animação de Martim nas três semanas seguintes, que antecederam o embarque – para um cruzeiro por países do Oriente Médio e da Europa, em navio italiano de luxo, cabina de primeira classe reservada, trajes especiais feitos por alfaiate para ele, uma compra de enxoval para Maria – dizem que ele próprio o encomendou em boutique de luxo. E providências tomadas para ausência mínima de seis meses, uma vida nova que despontava para ambos, tudo muito anunciado, festas de despedida, sonhos.
Quatro dias antes do embarque, um telegrama chegou para Martim: “Impossível viajar. Boa viagem. Maria”.
O porteiro do edifício dela confirmou: a senhora? Viajara para Minas. Não, não deixara endereço.
No ateliê desolado, sobravam tintas, pincéis, esboços. Sobrava a sua vida. Martim se demorou sentado no tamborete, diante de uma tela em branco – olhando para o nada, parecia. Mas o nada de um homem que viveu já 54 anos, o nada de um artista, é feito de um tudo de miríades de impressões de cores de luzes de trevas de folhagens de falas de escutas de olhares mil olhares das cores todas o vermelho vivo o triste róseo do entardecer o suave cinzento da tarde de chuva o azul da melancolia e da divindade das guirlandas tecidas em torno dos amores da boca fresca da namorada de quinze anos de todos os sonhos as aventuras as batalhas os suspiros as mortes o nascer renascer de sempre o diálogo dos amigos os sons a música de todos os tempos e os livros os papiros da imaginação desatada e...
Havia ainda um tudo, no seu nada. E a ele entregue, como nunca antes, Martim se derramou em telas, desenhos, gravuras, no mais que podia, exaurindo todas suas possibilidades, desenvolvendo suas técnicas, esquecido de tudo o mais, até de comer, de dormir, obsessivo, redobrando horas no ateliê, lavando mal os pincéis, limpando a mão em trapos de solventes, de tinta – se envenenando. Morreu de repente, sete meses mais tarde.
Mas dizem os que bem o conheceram que mesmo na mocidade, que já na adolescência, tinha o hábito estranho de provar as tintas com a ponta da língua. Se inebriar de tintas. Que chegara mesmo, em período de estudante pobre, a comer uma gelatina química que lhe vendiam para preparo de suas tintas.
Quem sabe ao certo?
Nós, que nem ao menos somos deuses – que histórias contaremos? Como dotá-las de todas as minúcias do acontecido? Afinal, Deus pôde fazer o que queria, pegar seu lápis-carvão do tamanho do universo e ir escrevendo milênios e bilhões de anos de suas histórias, grandes, pequenas, infinitas, grãos de areia, estrelas no céu? – tudo história. Deus escreve a história do universo, e deste mundo, e a minha, e a tua.
Somos personagens criados, títeres em uma grande peça teatral. Rabiscos coloridos, dispersos em uma tela. Ou restos de tinta suja usada para feitura de outros mundos, quem sabe. Mais nada.
Cecília Prada