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“M” E “H” no 609

Things – Bruno Espadana

São Paulo é uma cidade grande, muito grande. M e H conheceram-se numa dessas situações inesperadas, que talvez por comodidade convencionamos chamar de acaso. M, há tempos que estava acostumada com a rotina do metrô, meia hora para ir e outra longa meia hora para voltar. Para suportar melhor esse limbo de tempo inútil, lia revistas de fotonovelas, que adquiria numa loja de livros usados, próxima à estação da Praça da Sé. A monotonia desse trajeto só era quebrada lá de vez em quando, com alguma paquera, pelo fuzuê com algum trombadinha ou algum ator fazendo sua performance e passando o chapéu.

Aquela manhã de sábado com garoa não prometia muito. Vagão cheio, M incomodou-se um pouco por ter que ficar em pé, e cavalheirismo, como se sabe, não anda muito na moda. Incomodou-se um pouco mais quando, no frenesi das pessoas que apressadamente entravam e saíam do vagão, um sujeito passou por trás dela, encostando-se, inevitavelmente. Este momento deve ter durado apenas um segundo, mas foi o suficiente para ela sentir um hálito de hortelã, e ele percebeu a fragrância de alfazema nos cabelos dela. Quando ele se afastou, ela olhou de soslaio, para identificar o atrevido, ao tempo que H, também discretamente, observava sua silhueta bem desenhada pelo reflexo da janela. Ato seguinte, um assento que ficou vago permitiu que a vida voltasse ao normal no escapismo de mais algumas páginas da fotonovela.

Desceu na estação de sempre e depois de mais uma manhã rotineira, ao meio-dia em ponto estava livre, seu fim-de-semana começou com o fim da garoa. Logo ela estava zanzando pelas barracas da feirinha da Liberdade, onde adquiriu umas bonequinhas de origami. O almoço se resumiu à alguns camarões no palito, assim, almoçava caminhando, observando os artesanatos e antigüidades espalhados pelas banquinhas. Naquele vai-e-vem de tanta gente, julgou ter visto o sujeito do metrô, próximo à uns quadros de paisagens japonesas que um pintor apresentava no chão de uma pracinha. Tímida do tipo ousada, aproximou-se para ter certeza, mas não viu mais o vulto, certamente era outra pessoa.

Lembrou-se que precisava renovar o estoque de suas revistas antigas de fotonovelas, e lá foi ela em direção ao sebo. Ao chegar foi diretamente à sala das tais revistas, onde levou um susto, pois ninguém menos que H estava ali, escolhendo alguns exemplares de bolsi-livros de faroeste, sua única distração literária. M imaginou inicialmente que H estivesse lhe seguindo, mas logo concluiu que isso não poderia ser, pois quando ela chegou ele já se encontrava no local. Depois pensou em coincidência, em destino, essas coisas que não entendemos muito bem, e logo já estava fantasiando que fosse algum investigador contratado, um tipo de detetive. Saiu de tais devaneios quando percebeu que ele já não estava mais naquela sala, então tratou de escolher alguns exemplares de revistas para sua coleção. O segundo susto foi na hora de pagar, pois ambos chegaram juntos ao balcão, o que fez com que o balconista perguntasse o típico 'quem está na vez?', o que inicialmente causou um certo constrangimento para ambos, mas foi a ocasião para uma breve troca de olhares e o esboço de um sorriso. O fato de H ter permitido que M pagasse primeiro, foi a senha para continuarem conversando e o manuseio do pagamento permitiu que ambos vissem que nenhum dos dois estava usando aliança.

As recentes aquisições permitiram que a conversa se prolongasse num café próximo dali. Esgotado o assunto das preferências literárias, trataram de puxar outros temas corriqueiros, amenidades bem triviais, apenas umas desculpas para poderem continuar se olhando, um adentrando o semblante do outro, tentando desvendar camadas de personalidades e nuances dessa atração inusitada. Esse mesmo ardente encontro de olhares, sequer permitiu que falassem sobre relacionamentos, fossem anteriores ou atuais, profissões ou endereços, esses itens que definem tanta gente. Eram apenas dois intensos olhares cruzados, que em seguida receberam a cumplicidade de duas mãos que se tocavam de leve, no início, e assim não demorou para que um certo par de lábios ávidos também se encontrassem. A vida naquele momento era apenas um sabor de hortelã e um suave aroma de alfazema, naquela esquina da megalópole.

Não se conheciam, não queriam se conhecer, mas desejavam se entregar. Talvez essa substância abstrata que chamamos de natureza humana, explique o fato de que dentro de poucas horas, já no número 609 de um hotel da rua Ipiranga, o par estivesse resfolegando num faiscante entrelaçamento com fusão de corpo e alma. O caos e o céu ao mesmo tempo. Depois, quando os corações foram desacelerando, o suor foi secando e os instintos permitiram que alguma lucidez se instalasse no recinto, começaram a conversar e, conversaram demoradamente, outro prazer que descobriram assim, sem querer. Concluíram que esse enigma, que as pessoas chamam de amor, pode acontecer assim, de repente, numa nublada tarde de sábado, no labirinto da gigantesca cidade. Ao saírem do hotel, ninguém sabia nome, idade, telefone, e-mail ou o que quer que fosse sobre o outro, esses ítens que identificam muita gente, o que não impediu de combinarem se encontrar no saguão do mesmo hotel, no mesmo horário, uma semana depois.

E passados sete dias, na tarde paulistana, desta vez ensolarada, lá estavam M e H novamente, tentando ser discretos na recepção do hotel, mas mal disfarçando a gana de avançar um sobre o outro, o que aconteceu de fato, logo que fecharam a porta do mesmo quarto 609. Pura selvageria. Frisson e êxtase. Volúpia e lascívia. Concupiscência e atração. Luxúria e lúbricas intimidades. Umidade e fricção. Ou o que muitos preferem resumir como tesão. Apagado o primeiro de muitos incêndios, M percebeu então que H havia trazido champanhe com morangos, e H pode enfim também notar os detalhes da lingerie provocante que M escolheu para o novo encontro. Algumas labaredas mais tarde, fruíram daquele prazer de conversar, de poder falar das sensações, dos sentimentos e das percepções desses momentos incandescentes. E falavam da saudade, e dos desejos, e dos medos, e das vontades, e das fantasias, e de todo um outro labirinto, o das afetividades que se entrelaçavam nas relações e no relacionamento. Antes de se despedir, H notou entre os pertences de M uma pequena réplica de espada japonesa, dessas para abrir envelopes, sinal de que ela devia ter passado novamente pela feirinha oriental. Já M, percebeu que H havia adquirido mais alguns livrinhos com histórias de bang-bang. Mas ninguém quis comentar nada, nada de observações, nada de perguntas. Manter algum mistério era muito mais excitante.

E assim se despediram, e assim se reencontraram, e assim foram repetindo seus encontros semanais, pontuados pela entrega total em suas experiências, preservadas por segredos mútuos, quase como se suas vidas particulares nem existissem, como se a vida real acontecesse apenas naquele idílico quarto 609. E mais não precisava. E como é próprio dessas raras uniões onde o casal se completa, se complementa e se funde, chegaram à um nível de cumplicidade e simbiose onde era possível sentir plenamente o estado emocional do outro, apenas pelo olhar, pela voz, pelo toque. Não raro, depois do descanso, abriam os olhos ao mesmo tempo, sonhavam um com o outro, e muitas vezes um ia dizer uma coisa e o outro completava. Ao final de um ano a sintonia era tanta que de vez em quando já se conseguia até mesmo ler o pensamento.

Foi mais ou menos por essa época que M começou a pensar na possibilidade de investigá-lo, de tentar saber mais sobre esse homem misterioso, que lhe fazia tão feliz. Talvez desvendar o cotidiano desse íntimo desconhecido, saber o que ele fazia durante a semana, onde morava, se era casado, no que trabalhava, essas coisas. Mas refletiu bem e escolheu deixar de lado a curiosidade, preferiu não quebrar a magia que os unia, não queria desconfianças, não queria que ele fizesse o mesmo, que descobrisse tudo sobre ela. E assim continuaram, já que toda a felicidade do mundo cabia naquele singelo quarto. Ali era o endereço do amor, da paixão, do romance e do desejo. O resto, era apenas o mundo. E pequenas mudanças naquele quarto eram quase um acontecimento. O dia em que trocaram as cortinas. Uma pequena gravura que apareceu em uma das paredes. Os desenhos florais na estampa de um lençol. E um dia as paredes receberam uma nova tonalidade, o salmão suave passou para um rosa pálido. Isso foi uma grande novidade.

E o tempo foi passando. As fronhas dos travesseiros foram naturalmente se gastando, perdendo a cor, a textura. As conversas agora tinham diminuído um pouco, entremeadas de breves silêncios, que aos poucos foram se prolongando e muitas vezes a falta de assunto era compensada com a leitura de fotonovelas e os livrinhos de bolso. Num dos encontros sequer fizeram amor, apenas trocaram carícias. Depois, uma viagem impediu o próximo encontro, e uma desculpa aqui e outra ali fizeram rarear os sábados dos amantes. Até que numa dessas tardes de muito calor, as paredes do 609 sequer viram o casal se despir, apenas conversaram, olharam-se demoradamente, choraram, abraçaram-se e então convenceram-se de que poderiam parar de se encontrar. O rio da vida que seguisse seu fluxo. Sem culpa, ou rancor, deram-se ainda um longo e afetuoso último beijo.

Na saída para a rua, nenhuma palavra, apenas dois semblantes que se encontravam quem sabe pela última vez e cada um seguiu para um lado. H dobrou a próxima esquina, refletindo sobre isso que as pessoas chamam de amor. Se isso existe mesmo, dura pouco, uns dois anos, concluiu. De seu destino nada sabemos, apenas que deixou de freqüentar uma certa loja de livros usados daquele lado da cidade. M, que tomou o metrô mais próximo, olhava demoradamente as fotografias da revista, mas nada via, apenas pensava em como era possível conhecer alguém com tal profundidade e sintonia sem sequer saber seu nome. Dela também pouco sabemos, apenas que continua usando xampu com perfume de alfazema e adquiriu o hábito de comprar pastilhas de hortelã.

Dizem que aquele sebo fechou. Dizem também que vai reabrir em outro ponto da cidade, mas não se sabe bem onde, pois como sabemos, São Paulo é uma cidade grande, muito grande.

***

Tchello d'Barros, escritor, artista visual e viajante.

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Comentários recentes

POEMA PARA AS PERNAS

"Sonho um sonho de pernas para o ar" e Lílian, com o brilhantismo de sempre, mostra que de pernas para o ar ela não tem nada!
Beijos, querida poeta.
Jorge

Jorge Cortás Sader Filho em 08/02/2010

Conversa à lareira

Belíssimo Eugênio.
Um beijo/rosa

rosa em 08/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

belas pernas, lílian.
Aroeira em 08/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

VOCÊ É FODA!
Hélio Pequeno em 08/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Ah, Lílian Maial, poetisa e mulher, médica e mestre! Por que não tuas pernas, se marcam passo, caminham, correm e, não raro, voam! Diz bem quando se sente nas alturas das letras a mirar as pernas nas ruas, na vida rotina de sempre ontens, sempre amanhãs...
Preserva as pernas, Mulher de Poesia! Este planalto central brasileiro anseia por elas e reza-lhe versos de andarilhar também, como quem não tem rumo (mas sabe de cor o caminho das estrelas).

Luiz de Aquino em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Hahaha, eu já comentei esse texto no Recanto das Letras, então aqui só vou resumir. O texto é genial, e uma ótima pérola para este site, que já contava com umuitas belezas.
Daniel C. Rodrigues em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

é preciso saborea-lo mais de uma vez, gostei da imagens, dos enjambements, gostei menos da pontuaçao que me escraviza na leitura de um poema que se quer livre, e que por tanto poderia ter as vezes, em alguns versos outra disposiçao dos mesmos. Estou pensado em analisa-lo junto na minhas alunas de master aqui na Freança. pour quoi pa? E ate muda-lo de lingua no meu seminario trilingue. parabens Lilian . Sua leitora Roselis
Sera que voce podia envioa-me este OD em anexo ao meu mail para facilitar ? Agradeço de antemao

rOSELIS BATISTAR em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Ler os poemas da Lílian é, sempre, mergulhar num exercício de beleza pensamentos, rimas e versos. Parabenizo o site Ver o Poema pela publicação do POEMA PARA AS PERNAS, ao tempo em que agradeço a oportunidade da sua leitura.
Lêda Yara em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Poema de pernas para o ar que pára o movimento para curtirmos o momento da leitura. Muito bom.
Fraterno abraço.
Fabio Daflon

Fabio Daflon em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Dra Lilian Maial , grande escritora , sensível poeta!
Parabéns pela lucidez inspirada nesses versos brancos e purificados pela sua lavra inconfundível !
Abraços fraternos
Vera Mussi

vERA em 07/02/2010

Me dá um abraço?!

lindo!
Rosa Pena em 07/02/2010

Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso

Lindoooo! O cordelista só deveria ter cuidado, pois caiu na mesma situação do nosso inteligentíssimo poeta Caetano Veloso. Não esqueça, querido amigo, de que Caetano foi, é, e sempre será um dos maiores poetas do mundo. Tem um pasado de luta contra todos os preconceitos. A reprovação é válida, a ofensa não.
Ubirajara Sá em 30/01/2010

Depois das queimas

Este poema me fez um bem danado. Sim. O amor - planta em solo frágil - rebrotando sempre, como a vida da vegetação, mesmo depois das queimadas.
Amália em 30/01/2010

Lamento junto a Deus pelo Haiti

Saudações! Realmente, esta dor não se explica, até mesmo porque não sabemos o dia de nossa morte, apenas temos que estar preparados. É difícil de entender alguns caminhos de Deus, aqueles que estão vivos vão ter que entender de alguma forma esses caminhos, eu não sei como isso vai acontecer, uma das explicações estão no texto acima.
Marcelo Torcato em 28/01/2010

HAITI, ANGRA, ILHA GRANDE E MEU CORAÇÃO

Lílian,
tua crônica fala por todos os seres que possuem em seu íntimo a empatia e o sentimento de solidadedade.
Beijo suas valiosas inspirações, de ontem, de hoje, de sempre.
Luiz Celso de Matos

Luiz Celso de Matos em 28/01/2010

DESERTOS

Gostei muito do primeiro verso deste poema.
Realmente impressiona.

Adalberto Santos em 28/01/2010

Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso

É lamentável a inocência e o entusiamo do Cidadão Antonio Barreto.
Copnhece da História do Mundo, do Brasil... Se faz História com o tempo. e o próprio Tempo há de mostrar que a visão sobre esse (des)governo do então Presidente/Ditador Lula da Silva vai entrar para uma Página Negra da nossa história brasileira.
Errar é humano! Permanecer no erro é burrice!!!

Maria em 28/01/2010

Lembrança do Rio

Especialmente lindo este escrever da Raquel.
Célio Pedreira em 23/01/2010
Edição:
RODOVIA ARTHUR BERNARDES - PASSAGEM SÃO PEDRO Nº 06 - TELÉGRAFO - BELÉM - PA CEP. 66.113.455
Hospedagem:
Design: