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Sonho meu
Adivinhara sua presença, mas quando a vi não acreditei: estaria sonhando? Não me belisco, toco em seu pelo de leve, no temor de que o toque possa dissolvê-la, sua imagem, minha alucinação? Por um breve minuto cruzamos o limiar entre o mundo-como-tal e o mundo-como-idéia. De repente ela se afasta, busca espaço para se alongar, como um gato. Estica primeiro as patas dianteiras, depois as traseiras, empinando o rabo, o focinho quase beijando o chão. Parece bocejar. Caminha para longe, porém dentro da minha vista (e eu da dela, evidente, todo amor é recíproco). Lá repousa o corpo com graça, cabeça erguida, olhar altivo, a desprezar a continuação do carinho, independente alma felina: teria assim ressuscitado? Ou seria um caso de vida paralela?
Se ela não me assustava nem quando, repreendida, ameaçava me morder, não seria agora, não importa em que dimensão esteja. Seus olhos brilham na escuridão do quarto. A pequena poça junto à janela obriga-me a levantar para pegar um pano de chão real que enxugue o xixi imaginário, ralhando com ela, que foge, se escondendo. Lavo as mãos na esperança de que a porta do banheiro seja empurrada, a qualquer momento, como outrora fazia, pedindo desculpa, oferecendo companhia.
Volto ao silêncio da noite, ainda esbravejando, para encontrá-la na cama, enovelada nas cobertas. Enche-me de lambidas, que eu termine com a zanga. A comoção é simultânea à coragem do tira-teima: um toque no interruptor do abajur... e nada. Apago a luz decidido a dormir, a barrar essa obsessão que persiste e insiste, contudo logo a ouço divertindo-se sozinha com brinquedos de borracha, especialmente os que fazem barulho. De volta à ilusão. Melhor assim, de que serve o canteiro de rosas intacto, sem as suas investidas? A roupa estendida no varal, a salvo, secando? Comer sem ela ao lado, implorando migalhas? Sair (ou chegar) sem ganidos e latidos? E Justine, onde está, chorará por mim? Seu choro é tão justo e comovente quanto o de um homem? E se fosse um bicho inventado, feito apenas de papel e tinta, vocês se interessariam menos?
Sofro há um ano, desde que a levaram. Não é que o luto seja necessário: ele é compulsório. Não quero mais ser medicado, pra que? Suas aparições, oníricas ou em vigília, continuam. Chega de pintura, desenho, escultura! Dessas malditas colagens: quadrado ou triângulo, vermelho ou azul, tanto faz, pra fugir do negro círculo da dor! Prefiro o nada do retângulo branco da página vazia, como já disse mais de uma vez, ninguém me ouviu. Roubei bloco e caneta, e aqui estou. Precisava contar o que (não) se passa. Relatar por escrito, prazer solitário onde se prescinde do objeto amado: se ele não existe mais – pelo menos pra mim – a fé se impõe. Fé na ficção, para torná-la realidade. A verdade não é uma flor num canteiro, esperando ser colhida – ela é efeito de palavra.
Escrever é captar o que não existe. Uma outra modalidade de organização de sentido. Vontade criando possibilidade. Mágica, ilusionismo. Finjo a dor que deveras sinto. Um texto vive per se, e tem vida eterna. Aqui estou sem mim, sem ti, mas feliz, com esse fantasma. Puro instante. Sem passado (lembrança de presença), sem futuro (expectativa de ausência), só assim não dói. Se crio poemas, crônicas, contos posso recriar meu animal de estimação. Transfiro os cuidados que tinha com ele para os cuidados com as letras, um enlace substitutivo, onde salvo memórias da experiência. Minha cadela morta – ou distante, em mãos alheias, quase dá no mesmo – é como uma sombra que tento trazer de volta, torná-la apreensível. Chego na fronteira, chamo, e ela atende, vem. Um sonho louco, mas qual não é?
Ana Guimarães voltar | ver comentários (10) | envie para um amigo
 Parodiando um famoso texto que, ao contrário do que se pensa, não é de Borges, se pudesse viver novamente minha vida tra... Saiba mais sobre Ana Guimarães
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Comentários recentes
Alberto Cohen - porque poetas não têm explicação...
Sobre Alberto Cohen, achei muito bonito tudo que descobri nas poesias.
Aproveito para deixar uma trova.
Ao trilhar nossos caminhos
Vemos crianças que choram
Se a elas damos carinho
Seus sorrisos se afloram.
Na minha ultima postagem em 15/07/010, Escrevi algo que veio da minha emoção de momento.
Percebi logo a seguir, que havia escrito uma palavra incorreta dentro da frase.
(Algo que nos suplante) Desculpem-me.
Rio preto MG
Maria Helena Alves Lamanna em 26/07/2010
Pétalas
Amo o que escreves, colocas alma e paixão.
NILDE em 26/07/2010
Ruy Barata: aglutinador dispersivo?
Jorginho, caro, seus comentários elegantes, poéticos (tu, poeta também) 1 Muita inspiração pra ti, caro.
me fazem refletir. E o diálogo leva à reflexão. vivas do velho Paulo Nunes
PAULO nUNES em 24/07/2010

Ruy Barata: aglutinador dispersivo?
Esse é um texto para se refletir, claro, e muito mais sobre de quem ele trata: Ruy Barata. Os caminhos há relexão, muitos, estão nele, do Modernismo, no Pará, e suas rupturas ou reinvenção às formas fixas, outras formas; sua possível dispersão? ou um aglutinador mesmo que é o que mais acalanto; o poeta que foi, o letrista, ou letrista-poeta, enfim, essa figura que sempre deverá suscitar polêmica, porque múltiplo, sem receio, indo, ou remando, meu mano! Ruy, para mim, é semelhante ao Vinícius de Moraes, este foi um poeta de livro, erudito, e aliás como Ruy, publicou dois livros antes de enveredar para a MPB; Vinícius foi quase que execrado por esses intectuais, pelo fato de ter traído a Poesia, e tornar-se letrista, Ruy, por aqui, também; a qualidade da letra da MPB, com o aparecimento do Vinícius, teve maior relevância e qualidade, na PPP, com Ruy, também; Vinícius é um dos poetas brasileirosmais traduzidos, ouvidos, lidos, estudados, e Ruy não, a dferençaentre eles é que um é do Rio de Janeiro e outro de Santa Maria de Belém do Grão Pará. Desejaria que o Ruy fosse mais estudado e indicado a teses de metrado, doutorado, tcc, enfim, pois só assim nossa literatura pode ser conhecida pelo menos por nós, e quiça essa postura se estenda à letra de música, que foi o que esses dois poetas brasileiros, Vinícius e Ruy, amavam.
jorge andrade em 22/07/2010

Dança
Olá Nidia
Bom vê-la por aqui e "dançar" na sua poesia.
Um abraço
edimo ginot
Edimo Ginot em 22/07/2010
Pétalas
Por algum momento ouvi a voz da Simone Almeida a interpretar musicalmente Pétala do Ubirajara Sá. Singelo, profundo e refexivo. Ave, Ubirajara!
Marcos Afonso Dutra em 17/07/2010
OCASO
Eunice Arruda é uma das melhores poetas brasileiras. Seus poemas são sensíveis, com metáforas delicadas e potentes. Gosto da maneira como consegue sintetizar o poema sem deixá-lo superficial: o efeito, ao contrário disso, é de força poética.
Ariane Alves dos Santos em 17/07/2010
Teatro da vida
Mi querida amiga Efigénia, cuando puedo leo tus poesías amiga, ya las que guardo estan gastadas de tanto leerlas.
Un bes desde Argentina.
Héctor Reinaldo Pomodoro
Héctor Reinaldo Pomodoro em 17/07/2010
Dança
Sem comentário. isso e sublime, maravilhoso e estasiante
Osvaldo gaia em 17/07/2010
"ALÉM DOS MUROS" com Pedrinho Cavalléro
Fico feliz por este fanzine eletrônico, com uma qualidade exemplar para outros. São dessas niciativas que a cultura, a arte de Belém é mostrada edialogada com outras de outros centros, porque é assim que se faz o conhecimento, neste embate. Parabéns.
jorge andrade em 17/07/2010
Teatro da vida
Mi querida amiga pasan los años pero siempre te recuerdo, es una pena no poder escribir Portugués pero:- puedo leer todas las poesías.
Un beso grande y Dios te bendiga
Héctor Reinaldo Pomodoro em 15/07/2010
Alberto Cohen - porque poetas não têm explicação...
Se não existe uma explicação para o poeta... Carrego dentro de mim, pontos de interrogação????
Quem é este ser que vive dentro de mim?
Que às vezes me angustia
As vezes me dá alegria
Nem eu mesma entendo !
Quem poderá entender?
Pergunto não ouço respostas
E eu mesma viro as costas
Para este ser que é o meu ser
De um lado a realidade
Do outro a utopia
Quando tudo se mistura
Torna-se uma agonia
Não sei se vivo uma ilusão
Ou uma grande magia
Como não ouço respostas
Prefiro pensar que sou
Maria...Somente Maria!
Maria Helena Alves Lamanna em 13/07/2010

Alberto Cohen - porque poetas não têm explicação...
Boa Noite.Gostei da forma como definiu que o poeta não tem explicação.A partir do ano de 2002, escrevi o meu primeiro poema e confesso ter procurado por muito tempo uma explicação para o que aconteceu comigo.Com o meu primeiro poema, conquistei dois títulos em concursos.
Não tenho um grau de escolaridade superior, e nunca tive muitos livros para ler. Nasci e vivi em um pequeno povoado durante vinte e seis anos da minha vida.Hoje, já conquistei mais de doze títulos em concursos.Resolvi comentar algo, por ter uma amiga que se chama Carla Cohen. Veio do Rio de Janeiro, e mora na cidade de Valença, cidade visinha a minha. Vou comentar com ela sobre Alberto Cohen. Construimos no povoado de São Pedro do Taguá, uma pequena Biblioteca em regime de mutirão e contando com a solidariedade de amigos e Carla tem me ajudado bastante. Acredito que a poesia tenha vindo para mim como uma missão. Hoje incentivo as crianças para um mundo mais cultural e concreto.
Não quero ver o nome das nossas crianças como futuros predadores dos grandes centros.
Um grande abraço. Maria Lamanna Rio Preto MG
Maria Helena Alves Lamanna em 12/07/2010

Dança
Senti a profunda singularidade da beleza deste poema. Não tem como não apaixonar-se pela dança.
Marcos Afonso Dutra em 12/07/2010
POVERA - vídeo poema
Marcante, reflexivo, irreverente e doce, alguns dos adjetivos que definem essa poesia lapidada a ferro, fogo e flores.
Tua subjetividade abre um leque vasto em mil interpretações, enfim, aí está o belo.
Forte e destemido, sem medo de marcar presença singular na arte.
Aqui óh,de joelhos!
Simplesmente intrigante e.........bela.
izildinha renzo em 10/07/2010
Dança
Olá, Nydia, boa tarde de segunda-feira pra você, lindíssima poeta!
Dancei consigo a sua música, senti consigo as suas dores, seus amores e me elevei nos ares, com as asas que a Poesia nos dá.
Linda, leve, terna e ao mesmo tempo profundo o seu poema. Parabéns, um grande beijo!
DARCI BORGES em 05/07/2010
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