À espera do vento
A chuva caiu sobre a cidade
E lavou as ruas.
Lavou as muralhas de pedra,
Trouxe à tona espadas e pétalas esquecidas.
Quando passei pela porta do lado do poente
As sentinelas apontaram-me com o dedo:
“Ali está aquele que procura e não se cansa.”
Ouvi clarins
Que soavam como as trombetas do apocalipse,
Mas estavam longe feito um lenço na janela,
Um olho que espia detrás do postigo.
Quando o vento levar meus cabelos,
Direi:
“Cansei-me da procura.”
Espero pelo vento todas as manhãs,
Todas as tardes,
E às vezes encontro teus olhos nessa espera.
Às vezes ouço tua voz no crepúsculo,
Mas as muralhas ficaram para trás
Com suas sentinelas de bronze.
Já não há clarins, nem chuva.
Quando o vento levar meus cabelos,
Direi:
“Cansei-me da produra.”
E poderei deitar tranqüilo
Esquecido dos caminhos longos.
Gil Cleber
Leia o livro "Vento e folhas" na íntegra: