Certo dia desses
que já não voltam
sentei-me a teus pés
para te olhar dentro dos olhos
sentir a inquietude da tua alma
e te acalmar.
Mas, não teve jeito.
Já nem olhavas este mundo,
porque aqui
sentido não fazia.
Tentei de tudo.
Ainda sentada aos teus pés
procurei descaminhos inteiros
que ao menos dessem pista
do paradeiro dos teus pensamentos.
Nada.
Nem sinal.
Eles iam aos bandos
lembrar os desconfortos de outra vista.
Comecei então a usar de outros meios.
Primeiro, segurei tua mão.
Porém, nem uma respiração me devolveu.
Gritei logo.
Mas nem piscaste.
Peguei-te pelos ombros,
esconjurei-te,
busquei teus olhos,
despejando blasfêmias de ciúme e ódio.
Continuavas longe
na distância dos confins do mundo.
Então passei a vagarosamente me despir
com um silêncio natural de poeta.
Nem me olhavas.
Corri, gritei
até que adormeci nua na estrada fria.
Então levantaste calmo
a me cobrir com flores
que ainda hoje não sei de onde vieram.
Enquanto eu dormia ofegante
pelo esforço de trazer-te presente
deslizavas os dedos longos de tuas mãos
sobre meus cabelos,
cantando como se eu fosse criança
os versos encantados que compunhas
durante os intervalos da minha respiração.
Naquela tarde,
eu sem saber enlouquecia.
Tu, porém, muito calmo
abraçou-me por inteira
longamente...
Eternamente.
Até que parti de todas as horas
e dias presentes para sempre,
para estar agora
onde a princípio
não sabia, mas já estavas:
do outro lado do rio,
além do céu, da morte e
todas as grandes dores
que não mais sentirei
sentada à sombra de meus próprios pés,
voando junto com teus pensamentos.
Pequenos pés
A solidão é um caminho sem volta
em que os passos pequenos confundem até mesmo os pés
O ponto de partida é o mesmo de chegada
E se as luzes da cidade escondem-se
nas paredes espessas de concreto:
solidão é caminhar no escuro,
guiando-se por sua luz interna
É não tentar ver no outro a novela
mas conceber se fiel à própria voz
Solidão é um pressagio eterno
com olhos para as nuvens
e pés no chão
É estar tão possuído de si
a ponto de não esperar do grão sequer o broto,
porém, é ver o mar
e ficar em dúvida
sobre a própria liberdade de ir
para todas as voltas
Solidão é a estrada.
Mão única
Sem retorno
Acaso torto
Meu espírito pálido
envolve-se na luz perdida dentro de mim
Encantando-se mais com a sua
que me cega e alcança ao pôr-do-sol
Todas as vozes tentam romper o céu
que nasce dentro do seu olhar
A minha é o mais puro delírio
de quem não pode sequer ter abrigo
em sua oração.
Não me queixo.
Nasci assim.
Poema de você
Minha cor temperamental
Pausa reticente sobre os teus olhos nus,
Inquietantes e fortes e escorregadios
Como a minha paz
Há pouco roubada
Tenho certeza que se os merecesse
É porque eu não me seria nesta vida
Já que sabem tanto de mim.
Melodia de passamento
E de repente
fez-se tão distante
que a noite preferiu calar
E sua ausência despertou no escuro
tantas luzes falsas
que nem quero ver.
Outro dia quem sabe
o silêncio rompa a madrugada
e me leve por completo
a alguém que não tenha medo
Hoje,
a solidão me distrai com meus pensamentos passados.
Janela
O frio se acomoda entre nós
Como uma flor de cactos
Mas não te fere enquanto me eterniza e seca
Chegaremos logo a qualquer lugar distante
Por enquanto tudo é fuga
Passando rápido pela janela
Não seremos como antes
No mesmo lugar
Só as árvores envelhecem.
Um dia de sol
Inesperadamente,
a tristeza deitou seu corpo branco sobre mim,
levando-me a calar e consentir seu peso.
Suas asas flácidas
tocaram meus lábios imóveis,
derramando na minha boca todas as suas mentiras surdas
e saudades irremediáveis...
Seus cabelos longos
prenderam meus braços, meus soluços,
cravando na minha pele o seu cheiro.
Quando enfim meu corpo cedeu ao seu calor angustiante,
deixando que me levasse,
fugiu,
sem me olhar,
sem gritar,
sem nada.
“Nonada” _ Guimarães Rosa
Minha alma está pesada pelos seus passos
Estamos vagando, meu bem
Estamos à beira de nós
Um infinito que gira no caos me habita, me coabita
e eu concedo
É noite
tempo para os olhos que se esgotaram
Tempo de irmos
Não há tempo pra nada.
Cada dia e desencontro
Passou sem parar
Lenda de Fuga
Cavalos marinhos no passeio da minha casa
ainda cantam hinos frágeis
Mas que ecoam soltos
como esse vento frio de inverno
Cavalos selvagens me levam
entre seus dedos longos
para a minha inestação
O lobo maldito da fome
quis prender meu pensamento
mas minhas crianças de ar
seguraram-me antes pelas mãos
Então fui ver meus filhos
e os amigos que perdi
na última tempestade de areia
que encerrou meu coração num pote de conservas.
O Vale de Perus
Uma vida inteira que a morte finda
entre documentos de nomes falsos e laudos de perícia
Vidas imensas que nem ossos se acham
E de suas maravilhas restaram passos de árvores
entre bosques inventados
Homens, mulheres, crianças, inocentes
Todos em Perus acenam suas marcas
e gritam a independência que não proclamaram
Corre ainda o sangue deles em veias que ainda choram e se machucam
Mas de resto, aprendeu-se a silenciar a memória
Como se fosse possível calar toda a ação humana
com tiros de tortura
A Roda do Tempo
A História, este mundo não mudou tanto,
mesmo tão velozmente,
que não possa fazer submergir
outra flor das primaveras de tempos atrás.
Ainda somos famintos.
E somos muitos
E nisto consiste o deboche da flor:
ela não morrerá