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  1.  POEMA PARA AS PERNAS - Lílian Maial (28)
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  3.  Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso - Antônio Barreto (12)
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  5.  Lamento junto a Deus pelo Haiti - LEONARDO BOFF (9)
  6.  Depois das queimas - Antonio Rezende (7)
  7.  Conversa à lareira - Eugênio de Sá (7)
  8.  A moça que passa - Alberto Cohen (6)
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  14.  Amor e saudade - Edimo Ginot (4)
  15.  Um novo mundo é possível - Maria Cleide Pereira (4)
  16.  DESERTOS - Lílian Maial (4)
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  18.  Todas as línguas - Carlos Correia Santos (3)
  19.  Walter Luiz Jardim Rodrigues lança o romance CORRENDO ATRÁS - Ver-o-Poema (2)
  20.  A luz não se apagou dentro do livro - Edmir Carvalho Bezerra (2)

Conto poético de dois mundos...

Sun light

Certo dia desses

que já não voltam

sentei-me a teus pés

para te olhar dentro dos olhos

sentir a inquietude da tua alma

e te acalmar.

Mas, não teve jeito.

Já nem olhavas este mundo,

porque aqui

sentido não fazia.

Tentei de tudo.

Ainda sentada aos teus pés

procurei descaminhos inteiros

que ao menos dessem pista

do paradeiro dos teus pensamentos.

Nada.

Nem sinal.

Eles iam aos bandos

lembrar os desconfortos de outra vista.

Comecei então a usar de outros meios.

Primeiro, segurei tua mão.

Porém, nem uma respiração me devolveu.

Gritei logo.

Mas nem piscaste.

Peguei-te pelos ombros,

esconjurei-te,

busquei teus olhos,

despejando blasfêmias de ciúme e ódio.

Continuavas longe

na distância dos confins do mundo.

Então passei a vagarosamente me despir

com um silêncio natural de poeta.

Nem me olhavas.

Corri, gritei

até que adormeci nua na estrada fria.

Então levantaste calmo

a me cobrir com flores

que ainda hoje não sei de onde vieram.

Enquanto eu dormia ofegante

pelo esforço de trazer-te presente

deslizavas os dedos longos de tuas mãos

sobre meus cabelos,

cantando como se eu fosse criança

os versos encantados que compunhas

durante os intervalos da minha respiração.

Naquela tarde,

eu sem saber enlouquecia.

Tu, porém, muito calmo

abraçou-me por inteira

longamente...

Eternamente.

Até que parti de todas as horas

e dias presentes para sempre,

para estar agora

onde a princípio

não sabia, mas já estavas:

do outro lado do rio,

além do céu, da morte e

todas as grandes dores

que não mais sentirei

sentada à sombra de meus próprios pés,

voando junto com teus pensamentos.

 

 

Pequenos pés

 

A solidão é um caminho sem volta

em que os passos pequenos confundem até mesmo os pés

O ponto de partida é o mesmo de chegada

E se as luzes da cidade escondem-se

nas paredes espessas de concreto:

solidão é caminhar no escuro,

guiando-se por sua luz interna

É não tentar ver no outro a novela

mas conceber se fiel à própria voz

Solidão é um pressagio eterno

com olhos para as nuvens

e pés no chão

É estar tão possuído de si

a ponto de não esperar do grão sequer o broto,

porém, é ver o mar

e ficar em dúvida

sobre a própria liberdade de ir

para todas as voltas

Solidão é a estrada.

Mão única

Sem retorno

 

 

Acaso torto

 

Meu espírito pálido

envolve-se na luz perdida dentro de mim

Encantando-se mais com a sua

que me cega e alcança ao pôr-do-sol

Todas as vozes tentam romper o céu

que nasce dentro do seu olhar

A minha é o mais puro delírio

de quem não pode sequer ter abrigo

em sua oração.

Não me queixo.

Nasci assim.

 

 

Poema de você

 

Minha cor temperamental

Pausa reticente sobre os teus olhos nus,

Inquietantes e fortes e escorregadios

Como a minha paz

Há pouco roubada

Tenho certeza que se os merecesse

É porque eu não me seria nesta vida

Já que sabem tanto de mim.

 

 

 

Melodia de passamento

 

E de repente

fez-se tão distante

que a noite preferiu calar

E sua ausência despertou no escuro

tantas luzes falsas

que nem quero ver.

Outro dia quem sabe

o silêncio rompa a madrugada

e me leve por completo

a alguém que não tenha medo

Hoje,

a solidão me distrai com meus pensamentos passados.

 

 

 

Janela

 

O frio se acomoda entre nós

Como uma flor de cactos

Mas não te fere enquanto me eterniza e seca

Chegaremos logo a qualquer lugar distante

Por enquanto tudo é fuga

Passando rápido pela janela

Não seremos como antes

No mesmo lugar

Só as árvores envelhecem.

 

 

Um dia de sol

 

Inesperadamente,

a tristeza deitou seu corpo branco sobre mim,

levando-me a calar e consentir seu peso.

Suas asas flácidas

tocaram meus lábios imóveis,

derramando na minha boca todas as suas mentiras surdas

e saudades irremediáveis...

Seus cabelos longos

prenderam meus braços, meus soluços,

cravando na minha pele o seu cheiro.

Quando enfim meu corpo cedeu ao seu calor angustiante,

deixando que me levasse,

fugiu,

sem  me olhar,

sem gritar,

sem nada.

 

“Nonada” _ Guimarães Rosa

 

Minha alma está pesada pelos seus passos

Estamos vagando, meu bem

Estamos à beira de nós

Um infinito que gira no caos me habita, me coabita

e eu concedo

É noite

tempo para os olhos que se esgotaram

Tempo de irmos

Não há tempo pra nada.

Cada dia e desencontro

Passou sem parar

 

 

Lenda de Fuga

 

Cavalos marinhos no passeio da minha casa

ainda cantam hinos frágeis

Mas que ecoam soltos

como esse vento frio de inverno

Cavalos selvagens me levam

entre seus dedos longos

para a minha inestação

O lobo maldito da fome

quis prender meu pensamento

mas minhas crianças de ar

seguraram-me antes pelas mãos

Então fui ver meus filhos

e os amigos que perdi

na última tempestade de areia

que encerrou meu coração num pote de conservas.

 

 

O Vale de Perus

 

Uma vida inteira que a morte finda

entre documentos de nomes falsos e laudos de perícia

Vidas imensas que nem ossos se acham

E de suas maravilhas restaram passos de árvores

entre bosques inventados

Homens, mulheres, crianças, inocentes

Todos em Perus acenam suas marcas

e gritam a independência que não proclamaram

Corre ainda o sangue deles em veias que ainda choram e se machucam

Mas de resto, aprendeu-se a silenciar a memória

Como se fosse possível calar toda a ação humana

com tiros de tortura

 

 

 

A Roda do Tempo

 

A História, este mundo não mudou tanto,

mesmo tão velozmente,

que não possa fazer submergir

outra flor das primaveras de tempos atrás.

Ainda somos famintos.

E somos muitos

E nisto consiste o deboche da flor:

ela não morrerá

***

Juliana Carvalhal

Juliana Carvalhal é professora de História. Natural de Itamonte, sul de Minas Gerais, hoje reside em Juiz de Fora. O gosto pela escrita veio cedo e nem sempre foi compreendido. Seus autores preferidos são Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Affonso Romano de Santana e João Guimarães Rosa.

 

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Comentários recentes

POEMA PARA AS PERNAS

"Sonho um sonho de pernas para o ar" e Lílian, com o brilhantismo de sempre, mostra que de pernas para o ar ela não tem nada!
Beijos, querida poeta.
Jorge

Jorge Cortás Sader Filho em 08/02/2010

Conversa à lareira

Belíssimo Eugênio.
Um beijo/rosa

rosa em 08/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

belas pernas, lílian.
Aroeira em 08/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

VOCÊ É FODA!
Hélio Pequeno em 08/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Ah, Lílian Maial, poetisa e mulher, médica e mestre! Por que não tuas pernas, se marcam passo, caminham, correm e, não raro, voam! Diz bem quando se sente nas alturas das letras a mirar as pernas nas ruas, na vida rotina de sempre ontens, sempre amanhãs...
Preserva as pernas, Mulher de Poesia! Este planalto central brasileiro anseia por elas e reza-lhe versos de andarilhar também, como quem não tem rumo (mas sabe de cor o caminho das estrelas).

Luiz de Aquino em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Hahaha, eu já comentei esse texto no Recanto das Letras, então aqui só vou resumir. O texto é genial, e uma ótima pérola para este site, que já contava com umuitas belezas.
Daniel C. Rodrigues em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

é preciso saborea-lo mais de uma vez, gostei da imagens, dos enjambements, gostei menos da pontuaçao que me escraviza na leitura de um poema que se quer livre, e que por tanto poderia ter as vezes, em alguns versos outra disposiçao dos mesmos. Estou pensado em analisa-lo junto na minhas alunas de master aqui na Freança. pour quoi pa? E ate muda-lo de lingua no meu seminario trilingue. parabens Lilian . Sua leitora Roselis
Sera que voce podia envioa-me este OD em anexo ao meu mail para facilitar ? Agradeço de antemao

rOSELIS BATISTAR em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Ler os poemas da Lílian é, sempre, mergulhar num exercício de beleza pensamentos, rimas e versos. Parabenizo o site Ver o Poema pela publicação do POEMA PARA AS PERNAS, ao tempo em que agradeço a oportunidade da sua leitura.
Lêda Yara em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Poema de pernas para o ar que pára o movimento para curtirmos o momento da leitura. Muito bom.
Fraterno abraço.
Fabio Daflon

Fabio Daflon em 07/02/2010

POEMA PARA AS PERNAS

Dra Lilian Maial , grande escritora , sensível poeta!
Parabéns pela lucidez inspirada nesses versos brancos e purificados pela sua lavra inconfundível !
Abraços fraternos
Vera Mussi

vERA em 07/02/2010

Me dá um abraço?!

lindo!
Rosa Pena em 07/02/2010

Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso

Lindoooo! O cordelista só deveria ter cuidado, pois caiu na mesma situação do nosso inteligentíssimo poeta Caetano Veloso. Não esqueça, querido amigo, de que Caetano foi, é, e sempre será um dos maiores poetas do mundo. Tem um pasado de luta contra todos os preconceitos. A reprovação é válida, a ofensa não.
Ubirajara Sá em 30/01/2010

Depois das queimas

Este poema me fez um bem danado. Sim. O amor - planta em solo frágil - rebrotando sempre, como a vida da vegetação, mesmo depois das queimadas.
Amália em 30/01/2010

Lamento junto a Deus pelo Haiti

Saudações! Realmente, esta dor não se explica, até mesmo porque não sabemos o dia de nossa morte, apenas temos que estar preparados. É difícil de entender alguns caminhos de Deus, aqueles que estão vivos vão ter que entender de alguma forma esses caminhos, eu não sei como isso vai acontecer, uma das explicações estão no texto acima.
Marcelo Torcato em 28/01/2010

HAITI, ANGRA, ILHA GRANDE E MEU CORAÇÃO

Lílian,
tua crônica fala por todos os seres que possuem em seu íntimo a empatia e o sentimento de solidadedade.
Beijo suas valiosas inspirações, de ontem, de hoje, de sempre.
Luiz Celso de Matos

Luiz Celso de Matos em 28/01/2010

DESERTOS

Gostei muito do primeiro verso deste poema.
Realmente impressiona.

Adalberto Santos em 28/01/2010

Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso

É lamentável a inocência e o entusiamo do Cidadão Antonio Barreto.
Copnhece da História do Mundo, do Brasil... Se faz História com o tempo. e o próprio Tempo há de mostrar que a visão sobre esse (des)governo do então Presidente/Ditador Lula da Silva vai entrar para uma Página Negra da nossa história brasileira.
Errar é humano! Permanecer no erro é burrice!!!

Maria em 28/01/2010

Lembrança do Rio

Especialmente lindo este escrever da Raquel.
Célio Pedreira em 23/01/2010
Edição:
RODOVIA ARTHUR BERNARDES - PASSAGEM SÃO PEDRO Nº 06 - TELÉGRAFO - BELÉM - PA CEP. 66.113.455
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