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Clarice adeus

Cadela à porta

Leio o nome Clarice e vejo duas: Clarice Lispector, inspiração e dor de cotovelo, e Clarice Liztaylor, mix de Elizabeth Taylor e Lispector, a cadela de minha filha. Ambas lindas: uma, escritora brasileira, nascida ucraniana, de olhos meio orientais; outra, beagle de olhos doces e amendoados.

Não sou fã de cachorro. Mas a bela cadela Clarice, sem que eu percebesse, me venceu, tal o carinho lambido e saltitante com que me recebia. A beleza emociona; acompanhada de gestos gentis, torna-se irresistível.

A cadela matreira tornou-se parte fundamental do lar de minha filha. Não digo que olhava Clarice como uma neta. Impossível. Mas o amor irrestrito de minha filha e o convívio obrigatório com a cadela fizeram-me sentir Clarice como uma quase-pessoa, mulher forte, voz poderosa de homem em seu latido absurdo.

Na casa de minha filha em Santa Tereza, sua voz batia longe a da outra cadela bem maior, adotada para afugentar os assaltantes. Era Clarice em quem eu confiava para espantar os bandidos pululantes da ex-bucólica Santa Tereza.

Depois, mudaram-se os três para meu prédio: filha, genro e Clarice. E eu, muitas vezes, me flagrei chateada quando o marido de minha filha falava áspero com a cadela. Calava-me, mas sentia a tristeza do bicho, completamente tarada pelo homem – nisso, era uma fêmea completa.

Passei a visitar minha filha, esperando a qualquer momento o toque mágico do pêlo de Clarice. Ainda que, muita vez, a xingasse de fedorenta, piolhenta, mal-educada e que-mais.

- Sai, porcaria! Essa cadela não toma banho?!

Quando minha filha esteve doente, acontecia de eu dormir no quarto ao lado do dela. Pela manhã, acordava com uma presença quente, do lado direito da cama: Clarice com seus olhos pidões de carícias. Correspondia sempre, fingindo repulsa em voz alta, para que não a deixasse entrar com força em minha vida.

- Pára, Clarice! Você nem me deixou dormir direito! – repetia, enquanto passava a mão em seu pêlo.

Anos se passaram. Depois que minha filha foi para a casa nova, Clarice começou a mostrar vestígios de decadência física: doze anos de idade. Mesmo assim, ainda se levantava, latia, tentava uma aproximação e expressava vontade de sair a passear, seu passatempo predileto.

Ela, como eu, cheia de achaques. Nela, a doença maldita do câncer se manifestou com fúria de espíritos malignos, como o fizera à minha amiga do peito. Flagrante na cara, em meses, Clarice ficou papuda, deformada, o olhar enevoado. Não brincava como antes, não se intrometia nas pernas e conversas da gente, não pulava para a almofada do meu lado, nada. Deitava-se horas e horas embaixo da mesa da sala, à espera de seu destino implacável.

Veterinários se sucederam, para apenas confirmar a doença. Sua dona tentou, tentou... Agarrou-se à esperança dos que muito amam, quis protegê-la, ampará-la. Operar ou não, a maior dúvida. Parecia sofrimento inútil. E bicho não se queixa direito. Decidiram esperar o fim, até que Clarice se tornasse doente terminal de fato.

- Não é melhor sacrificá-la logo?

- Nem diga isso, mãe! Ela é velhinha, mas amo Clarice com todas as minhas forças. Vou me dedicar a ela.

Covarde, passei a evitar as visitas a minha filha: não queria sofrer por cachorro as penas da angústia, da doença grave e depois, o enorme vácuo da morte, num mundo injustamente chamado pelos italianos de mondo cane.

Quem dera fosse verdade! Semelhante a Walt Whitmam, às vezes, também eu quero dar as costas à raça humana e me juntar aos animais. “They are so placid and self-contented” ( Eles são tão plácidos e satisfeitos consigo mesmos...).

Hoje, Clarice completou seu ciclo de vida. Sei que seu sofrimento era enorme e era preciso sacrificá-la, mas minha filha me contaminou de esperança, de milagre.

Sofro, contra minha vontade. Choro, bancando a forte, sem confessar a ninguém que também eu amei Clarice Liztaylor o bastante para dizer: sinto falta dela.

 

Por Maria Lindgren

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Comentários recentes

Alberto Cohen - porque poetas não têm explicação...

Sobre Alberto Cohen, achei muito bonito tudo que descobri nas poesias.
Aproveito para deixar uma trova.
Ao trilhar nossos caminhos
Vemos crianças que choram
Se a elas damos carinho
Seus sorrisos se afloram.

Na minha ultima postagem em 15/07/010, Escrevi algo que veio da minha emoção de momento.
Percebi logo a seguir, que havia escrito uma palavra incorreta dentro da frase.
(Algo que nos suplante) Desculpem-me.
Rio preto MG

Maria Helena Alves Lamanna em 26/07/2010

Pétalas

Amo o que escreves, colocas alma e paixão.
NILDE em 26/07/2010

Ruy Barata: aglutinador dispersivo?

Jorginho, caro, seus comentários elegantes, poéticos (tu, poeta também) 1 Muita inspiração pra ti, caro.
me fazem refletir. E o diálogo leva à reflexão. vivas do velho Paulo Nunes

PAULO nUNES em 24/07/2010

Ruy Barata: aglutinador dispersivo?

Esse é um texto para se refletir, claro, e muito mais sobre de quem ele trata: Ruy Barata. Os caminhos há relexão, muitos, estão nele, do Modernismo, no Pará, e suas rupturas ou reinvenção às formas fixas, outras formas; sua possível dispersão? ou um aglutinador mesmo que é o que mais acalanto; o poeta que foi, o letrista, ou letrista-poeta, enfim, essa figura que sempre deverá suscitar polêmica, porque múltiplo, sem receio, indo, ou remando, meu mano! Ruy, para mim, é semelhante ao Vinícius de Moraes, este foi um poeta de livro, erudito, e aliás como Ruy, publicou dois livros antes de enveredar para a MPB; Vinícius foi quase que execrado por esses intectuais, pelo fato de ter traído a Poesia, e tornar-se letrista, Ruy, por aqui, também; a qualidade da letra da MPB, com o aparecimento do Vinícius, teve maior relevância e qualidade, na PPP, com Ruy, também; Vinícius é um dos poetas brasileirosmais traduzidos, ouvidos, lidos, estudados, e Ruy não, a dferençaentre eles é que um é do Rio de Janeiro e outro de Santa Maria de Belém do Grão Pará. Desejaria que o Ruy fosse mais estudado e indicado a teses de metrado, doutorado, tcc, enfim, pois só assim nossa literatura pode ser conhecida pelo menos por nós, e quiça essa postura se estenda à letra de música, que foi o que esses dois poetas brasileiros, Vinícius e Ruy, amavam.
jorge andrade em 22/07/2010

Dança

Olá Nidia

Bom vê-la por aqui e "dançar" na sua poesia.

Um abraço
edimo ginot

Edimo Ginot em 22/07/2010

Pétalas

Por algum momento ouvi a voz da Simone Almeida a interpretar musicalmente Pétala do Ubirajara Sá. Singelo, profundo e refexivo. Ave, Ubirajara!
Marcos Afonso Dutra em 17/07/2010

OCASO

Eunice Arruda é uma das melhores poetas brasileiras. Seus poemas são sensíveis, com metáforas delicadas e potentes. Gosto da maneira como consegue sintetizar o poema sem deixá-lo superficial: o efeito, ao contrário disso, é de força poética.
Ariane Alves dos Santos em 17/07/2010

Teatro da vida

Mi querida amiga Efigénia, cuando puedo leo tus poesías amiga, ya las que guardo estan gastadas de tanto leerlas.
Un bes desde Argentina.
Héctor Reinaldo Pomodoro

Héctor Reinaldo Pomodoro em 17/07/2010

Dança

Sem comentário. isso e sublime, maravilhoso e estasiante
Osvaldo gaia em 17/07/2010

"ALÉM DOS MUROS" com Pedrinho Cavalléro

Fico feliz por este fanzine eletrônico, com uma qualidade exemplar para outros. São dessas niciativas que a cultura, a arte de Belém é mostrada edialogada com outras de outros centros, porque é assim que se faz o conhecimento, neste embate. Parabéns.
jorge andrade em 17/07/2010

Teatro da vida

Mi querida amiga pasan los años pero siempre te recuerdo, es una pena no poder escribir Portugués pero:- puedo leer todas las poesías.
Un beso grande y Dios te bendiga

Héctor Reinaldo Pomodoro em 15/07/2010

Alberto Cohen - porque poetas não têm explicação...

Os pássaros nos direcionam ...
Com voos altos... Ou rasantes...
Neles sentimos os cantos
Constantes...Ou inconstantes...
São subidas e descidas
Que percorremos em nossas vidas
Na tentativa de ver
Algo que nos suplante.

Maria Lamanna Rio Preto MG

Maria Helena Alves Lamanna em 15/07/2010

Alberto Cohen - porque poetas não têm explicação...

Se não existe uma explicação para o poeta... Carrego dentro de mim, pontos de interrogação????
Quem é este ser que vive dentro de mim?
Que às vezes me angustia
As vezes me dá alegria
Nem eu mesma entendo !
Quem poderá entender?
Pergunto não ouço respostas
E eu mesma viro as costas
Para este ser que é o meu ser
De um lado a realidade
Do outro a utopia
Quando tudo se mistura
Torna-se uma agonia
Não sei se vivo uma ilusão
Ou uma grande magia
Como não ouço respostas
Prefiro pensar que sou
Maria...Somente Maria!

Maria Helena Alves Lamanna em 13/07/2010

Alberto Cohen - porque poetas não têm explicação...

Boa Noite.Gostei da forma como definiu que o poeta não tem explicação.A partir do ano de 2002, escrevi o meu primeiro poema e confesso ter procurado por muito tempo uma explicação para o que aconteceu comigo.Com o meu primeiro poema, conquistei dois títulos em concursos.
Não tenho um grau de escolaridade superior, e nunca tive muitos livros para ler. Nasci e vivi em um pequeno povoado durante vinte e seis anos da minha vida.Hoje, já conquistei mais de doze títulos em concursos.Resolvi comentar algo, por ter uma amiga que se chama Carla Cohen. Veio do Rio de Janeiro, e mora na cidade de Valença, cidade visinha a minha. Vou comentar com ela sobre Alberto Cohen. Construimos no povoado de São Pedro do Taguá, uma pequena Biblioteca em regime de mutirão e contando com a solidariedade de amigos e Carla tem me ajudado bastante. Acredito que a poesia tenha vindo para mim como uma missão. Hoje incentivo as crianças para um mundo mais cultural e concreto.
Não quero ver o nome das nossas crianças como futuros predadores dos grandes centros.
Um grande abraço. Maria Lamanna Rio Preto MG

Maria Helena Alves Lamanna em 12/07/2010

Dança

Senti a profunda singularidade da beleza deste poema. Não tem como não apaixonar-se pela dança.
Marcos Afonso Dutra em 12/07/2010

POVERA - vídeo poema

Marcante, reflexivo, irreverente e doce, alguns dos adjetivos que definem essa poesia lapidada a ferro, fogo e flores.
Tua subjetividade abre um leque vasto em mil interpretações, enfim, aí está o belo.
Forte e destemido, sem medo de marcar presença singular na arte.
Aqui óh,de joelhos!
Simplesmente intrigante e.........bela.

izildinha renzo em 10/07/2010

Prematuridade

Como sempre, só tenho elogio a seus poemas: sonoros, moderníssimos, enigmáticos. Parabéns!
Por que n concorre a concursos?

Isabel Dias Neves - Belinha em 06/07/2010

Soneto dos tempos modernos

Belos e profundos textos. Fazem a gente pensar e se emocionar. Os autores estão de parabéns. Um abraço a todos.
Belinha

Isabel Dias Neves - Belinha em 06/07/2010

Dança

Linda, suave envolvente, a vida podia ser assim leve , suave intrigante
Maria do Rosário Ferreira Ghidetti em 05/07/2010

Dança

Olá, Nydia, boa tarde de segunda-feira pra você, lindíssima poeta!
Dancei consigo a sua música, senti consigo as suas dores, seus amores e me elevei nos ares, com as asas que a Poesia nos dá.
Linda, leve, terna e ao mesmo tempo profundo o seu poema. Parabéns, um grande beijo!


DARCI BORGES em 05/07/2010
Edição:
Rodovia Arthur Bernardes - Passagem São Pedro Nº 06 - Telégrafo - Belém - PA Cep. 66.113.455
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