Estivemos juntos no fim de semana passada. Num início de noite belíssimo Alberto Cohen e eu conversamos sobre a vida e a poesia. O poeta parecia sozinho e melancólico. Apenas parecia, estava rodeado de poetas e poesia. Seus livros, os livros de tantos outros, seu lugar de inspiração. Um ambiente silencioso demais para mortais comuns, o lugar mágico para o poeta.
Alberto Cohen transmite paz. É um homem sereno, pacientemente dialogando com as adversidades da vida e com as agruras da morte. Mesmo quando esta lhe arranca um precioso passarinho.
A testemunha de nossa conversa recebeu um elogio que só os poetas fazem. E não parou mais de pensar na vida desse homem “impressionante”. Afinal, poetas não têm explicação...
Edmir – Ver-O-Poema - Alberto, em seu livro recente "Álbum de recordações", nosso amigo Braz Chediak, no prefácio o compara a Mário Quintana e a Drummond. O que significa isso para você?
Alberto - Muito! Embora eu ache que Poetas não devem ser medidos por outros. Eles dois são "Monstros" e eu apenas começo.
Edmir – Ver-O-Poema - A poesia tem uma forma, um conteúdo próprio? Ou tudo serve para a poesia?
Alberto - Pelo que tenho sentido durante meus 68 anos, a poesia simplesmente acontece. Momentos, figuras, personagens, histórias, de repente são motes para escrever. Ela não tem hora marcada, apenas acontece. Às vezes em formas e momentos inusitados. Claro que existem as técnicas, os estilos diversos e é exatamente isso que a faz maravilhosa em sua originalidade.
Edmir – Ver-O-Poema - Você recebeu muitos prêmios, muitas condecorações e menções honrosas. Para além da internet você alcança um público? como você vê a circulação da poesia de Alberto Cohen na sua Terra natal, Belém do Pará?
Alberto - Meu acervo literário, até agora, é composto de cinco livros, todos vencedores ou selecionados para publicação em diversos Estados do Brasil. Inclusive, como você sabe, dois deles venceram o Concurso do Instituto de Artes do Pará-IAP e o da Academia Paraense de Letras, o que muito me honrou. A circulação de meus livros em Belém é mínima. Acredito, porém, que isso está acontecendo também com os outros escritores. A maioria das pessoas daqui não compra livros e minimiza a poesia. Porto Alegre RS, onde resido atualmente, tem uma visão diferente da literatura e prestigia quem escreve.
A Internet, no meu ponto de vista, é peça fundamental para divulgação de livros que possuam qualidade.
Edmir – Ver-O-Poema - Sua poesia recebe influências de outros poetas? Quem você lê? Que autores indicaria a quem procura pela boa poesia?
Alberto - Acho que todos aqueles que escrevem versos de alguma forma sofrem influência de outros. Quando comecei a escrever, faz tempo, meus mentores foram Ruy Barata e Mário Quintana. A leitura, no entanto, deixa sempre resíduos de idéias e fórmulas, não só de poetas. Assim é que passando por Jorge Amado, Sartre, Machado de Assis, Haroldo Maranhão, Max Martins, Alonso Rocha (grande poeta), João de Jesus, Fabrício Carpinejar, Manoel de Barros, Bandeira, Drummond, Cecília Meireles, Thiago de Mello, Fernando Pessoa, Lorca e tantos outros como a sonetista portuguesa Florbela Espanca, não se pode fugir de algumas coisas que eles eternizaram. Influência jamais será plágio.
Edmir – Ver-O-Poema - Sua relação com a internet parece intensa. Podemos dizer que graças a rede de computadores a poesia vive? Quem lê poesia hoje?
Alberto - Se não existisse no tempo atual a Internet os inéditos nunca mostrariam suas bandeiras. Claro que, como tudo, ela tem seu lado negativo, por exemplo, a exaltação de algumas mediocridades.
Edmir – Ver-O-Poema - Você é poeta do Sul ou do Norte?
Alberto - Tento apenas ser poeta sem camisa de clube. Escrevo sobre o que vejo, vi e sinto, sem pensar em fronteiras.
Edmir – Ver-O-Poema - Quais seus projetos próximos de escritor?
Alberto - Continuar escrevendo enquanto tiver a minha própria aprovação ao que escrevo. No imediato, devo lançar em Porto Alegre, agora em maio, mais um livro, o “Menino das Samaúmas”.
Edmir – Ver-O-Poema - Você teria algo a dizer aos escritores e leitores do Ver-O-Poema?
Alberto - Continuem escrevendo, mas com autocrítica, sem se importarem com os comentaristas de carteirinha. O que seria dos passarinhos se os céus fossem só dos gaviões?
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